domingo, 29 de março de 2009

Se é que algum advogado lê este blog



Puxo conversa com o vizinho só para quebrar aquele constrangedor silêncio de elevador. As únicas coisas que eu sei sobre o meu xará de endereço é que ele luta jiu-jitsu e estuda Direito. Como a primeira atividade não me interessa muito, pergunto:
- E aí, cara, e a faculdade como tá?
- Tô gostando. Vou prestar concurso público.
- Ah, maneiro.
(Chegamos ao térreo)
- Valeu.
- Falou.
Fico eu cá com meus botões: existe alguém que estuda Direito que não queira fazer concurso público? Você já conversou com alguém que fale do Direito de maneira apaixonada? Acho que todo mundo já pensou quando criança em ser advogado. Mais por causa do dinheiro (até no Banco Imobiliário era a profissão que ganhava mais) e em menor escala pelos filmes hollywoodianos. Num país onde a Justiça praticamente não funciona, em todas as esferas, o que leva alguém a estudar Direto sem pensar no lado econômico? Não que isto seja pecado, mas com certeza, é o fator preponderante, para não dizer exclusivo. Acho isso um pouco frustrante, ao menos quando você tem 17, 18 anos. Juro que gostaria de ouvir de algum estudante de Direito (conheço poucos, confesso) falando que quer estudá-lo para mudar, ou pelo menos, tentar melhorar o sistema jurídico brasileiro. Mas não. O objetivo é sempre o tal do concurso público. O famoso ''mamar nas tetas do governo''. Daniel Dantas, Pimenta Neves, Renan Calheiros, Collor, entre muitos outros, são provas de que a Justiça neste país é praticamente nula, bem como o sistema político. Fico imaginando o quão frustrante deve ser para a Polícia Federal e, em seguida, para os promotores dos casos em conseguir condenar estas pessoas e vê-los por aí, impunes, em suas festas nababescas, e pior ainda, de volta à vida política. E não me venha com essa história de que a Justiça fez a parte dela, porque cabe à Justiça além de julgar, condenar os réus. Não é só com os ''peixes grandes'', no entanto, que a Justiça tarda (para sermos generosos). Tenho um caso na minha família, que talvez seja um dos motivos para minha ojeriza à Justiça. Minha avó, quando era viva, quebrou o fêmur ao tropeçar num degrau dentro da Caixa Econômica Federal. Ficou constatado por peritos que o tal degrau não deveria estar ali. Ganhamos a causa no mesmo ano. Após inúmeros recursos da Caixa, nove anos depois (!), recebemos a indenização, quando ela já havia falecido há tempos. Nove anos para resolver um caso desses? Imagina por quantas pessoas diferentes este processo passou. Não estou fazendo um protesto contra a profissão de advogado, que é uma das mais antigas e importantes para a soberania de um país. Mas, acho sim, que eles (advogados) também têm parcela de culpa no fato de a Justiça neste país ser tão incompetente. Pois, ao invés, de tentar melhorá-la, ao passar no tão sonhado concurso público, se adaptam e se acomodam a ela, como é característico de todo cargo público. Tudo bem que o Direito, por preceitos, não deva ser uma profissão em que a emoção e paixão preponderem. Mas a frieza e a rigidez, como disse o Bial, são características da morte. Espero que a Justiça não chegue a tanto.

sábado, 21 de março de 2009

Um convite forçado ao universo feminino

Escritoras, perdoem-me, mas este texto é uma crítica a vocês. Construtiva, porém, eu juro. Deixa eu tentar me explicar da melhor maneira antes que eu perca leitoras e amigas. Acho que há no universo da literatura feminina um certo preconceito e restrição contra nós, homens. Talvez vocês façam sem perceber, ou talvez pensem que nós, trocadores de lâmpadas, não mereçamos suas palavras (se escolheram a segunda opcão, por favor, ignorem este texto). Estou me referindo ao fato de a grande maioria dos textos escritos por mulheres serem, quase que exclusivamente, destinados às mulheres. Muitas vezes nós somos os temas: o cara que te largou e por quem você está sofrendo; um amor passado; a saudade. A minha impressão (a minha, que fique claro) é que por trás destes textos há uma mensagem do tipo: mulheres do mundo, uni-vos. Ou menos pretensiosamente: um conselho ou sentimento no qual outra mulher se identificará. Às vezes é meio chato para nós, zé cuecas, ler sobre estes temas. O que talvez vocês não tenham percebido é que é possível escrever sobre sentimentos narrando situações cotidianas, que são mais abrangentes e nos permitem também compartilhá-las. E com um toque feminino, que deixa tudo mais bonito. Tem um texto da Danuza Leão, chamado "Um casal feliz", sobre um casal comprando uma echarpe numa loja em Paris, que é tão delicado e doce que só poderia ser escrito sob um olhar e uma percepção feminina. Esta crônica da Danuza está nos ''As cem melhores crônicas brasileiras". Destas cem, creio que menos de dez são de autoria feminina. Assim como no O Globo, onde dos sete cronistas do segundo caderno, só um é mulher: a Cora, que, diga-se de passagem, é uma chata, mas tem a virtude de não restringir o público-alvo, ao contrário da Martha Medeiros, que conheço pouco, confesso, mas deve ter entre os seus leitores 90% de mulheres. Bem, depois de morder tanto, deixa eu assoprar um pouco. Como fã da maneira e da sutileza como vocês, mulheres, escrevem, gostaríamos (a terceira pessoa refere-se à classe masculina, já que este texto é um certo duelo de gêneros) de participar mais das suas ideias. Nos sentirmos um pouco mais, digamos, lembrados. Claro, isso se não for pedir muito.

terça-feira, 10 de março de 2009

A Igreja e a ignorância



Não vou desperdiçar meu tempo escrevendo sobre o arcebispo de Olinda que excomungou os médicos - e não o estuprador - que fizeram o aborto numa menina de nove anos porque acho que criticá-lo é empurrar bêbado na ladeira, como se diz por aí. Mas o fato é que já passou da hora de a Igreja ter menos voz e causar menos repercussão no mundo e principalmente no Brasil, onde ainda (infelizmente) exerce forte influência. O Obama, nos Estados Unidos, onde a instituição também é poderosa, acaba de ignorá-la ao autorizar o financiamento público para pesquisas com célula-tronco. Coisa, diga-se de passsagem, que o Brasil já faz há dois anos. Por outro lado, há pouco tempo quando o bravo ministro Temporão disse que já havia passado a hora de discutir-se o aborto como questão de saúde pública e não como caso de polícia foi um Deus nos acuda (literalmente). A Igreja, a meu ver, não é má e não tem interesses obscuros por trás de suas ideologias. É porque é ignorante mesmo. Ignorância na acepção da palavra. Ignora a evolução da Humanidade, ignora a Ciência. Não só as Ciências exatas (se é que posso chamá-las genericamente desta maneira), mas as Humanas também. Ignora a Sociologia, a Antropologia, a Psicologia. Eles pararam na Bíblia. Que foi escrita há não sei quantos séculos. Não tenho nada contra ela, traz ensinamentos e lições de vida enriquecedoras. Assim como a Mitologia Grega, por exemplo. Mas eu duvido que os cardeais e bispos tenham lido os grandes pensadores atuais, e que leiam jornais e revistas diariamente. Os que o fazem devem fazer com um olhar tão cético e conservador que não deduzem nada a partir destas leituras. Devem pensar o tempo todo ''nossa, que heresia''. Além do que, para conhecer a sociedade e suas transformações é necessário andar por ela e não ficar trancafiado em templos e igrejas. Para dar mais crédito ao que estou falando, não acho que a Religião seja o ópio do povo. Acho que você pode ter a sua fé, mas saber relativizar as doutrinas. O contrário é o extremismo, que não obstante leva à ignorância, em todos os casos. E, penso eu, que a ignorantes não deveríamos dar tanto ouvido.

terça-feira, 3 de março de 2009

A (para) quem interessar

O maior desafio de um escritor e de um jornalista, depois claro de pensar numa boa história, é escolher as palavras exatas (precisas) para compô-la. Acho que é isso que faz um escritor ou mesmo um jornalista melhor do que o outro, entre outros aspectos, claro. Ao longo deste texto, tentarei mostrar (exemplificar) o dilema que ronda minha cabeça na escolha de palavras e pela qual todos que escrevem devem passar. As que estão entre parênteses são as que fiquei em dúvida entre a própria e a que a antecede. Por exemplo, a primeira frase deste texto poderia ser: O grande desafio de quem escreve, após logicamente elaborar o texto, é achar as palavras certas para fazê-lo. O texto é a junção (união) de palavras. Para fazê-lo (escrevê-lo) bem, é necessário ter um repertório grande delas e também saber o significado exato das mesmas. Há dois exemplos ou contra-exemplos disso. Eu achava que uma cidade cosmopolita era uma cidade que exportava seus costumes. Quando não é. Já o Dan achava que quando uma coisa aumenta sensivelmente queria dizer um aumento sensível, pequeno. O que apesar de fazer lógica, também não é. Por isso sou contra palavras genéricas, como por exemplo, coisa; tipo; isso. Ex: O ministro anunciou, entre outras coisas, a reforma do hospital. Por que não, ''o ministro anunciou, entre outras medidas, a reforma do hospital?'' Ou se não forem medidas: O ministro anunciou a reforma do hospital, além de... O grande (bom) escritor é aquele que sabe exatamente dar emprego a determinada palavra em determinada situação. E é o que eu espero e tento me aproximar de fazer algum dia. Um outro exemplo que pode parecer bobo (raso), mas do qual me recordo até hoje: no primeiro período da faculdade, a professora de Gramática estava justamente explicando a diferença entre as palavras, e que não existem palavras que querem dizer exatamente a mesma coisa que outras. Senão, não haveria o porquê de existir mais de uma. O exemplo que ela deu foi o seguinte: Se a secretária deixa na mesa do chefe um bilhete escrito “importante” e outro com o título “imprescindível”, qual dos dois você lerá primeiro?Acho eu que usar linguagem rebuscada não compõe (faz) necessariamente um bom texto. Sou daqueles que preferem a linguagem mais simples, porque, afinal, para mim ao menos, o principal objetivo de um texto é passar a mensagem; ou seja, fazer a comunicação emissor-receptor. Por isso, sou fã de Machado e Nélson Rodrigues e não consegui ler “Grande Sertão Veredas”, de Guimarães Rosa. Para compor (redigir) um bom texto também é saber bem usar vírgulas, pontos, travessões e aspas, das quais sou fã. Mas isso fica (deixa) pra próxima.
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