segunda-feira, 19 de abril de 2010

A crônica em preto e branco


Clube de cronistas e escritores, como Vinícius de Moraes, Clarice Lispector, João Saldanha, José Lins do Rego, o título do Botafogo não poderia deixar de remeter ao gênero que fica no meio-de-campo entre a Literatura e o Jornalismo. Desacreditado desde o início do campeonato, arrasado depois de uma goleada de seis a zero em seu campo, sofrendo três gols de seu último grande ídolo, a conquista do Botafogo mereceria as palavras e a narrativa de Armando Nogueira, morto um mês antes. Eles nos brindara com frases como: "Feliz do clube que tem como símbolo um objeto de Deus" e "O Botafogo é bem mais do que um clube - é uma predestinação celestial".

Depois de uma vitória na semifinal do primeiro turno contra o Flamengo, que admita-se, mais por sorte do que por qualquer outro fator, e em seguida, com autoridade, uma vitória sobre o mesmo Vasco dos 6 a 0 menos de um mês antes, o Botafogo garantia seu lugar na final, como nos três últimos anos, mas ainda permanecia para sua própria torcida desacreditado.

Depois de um segundo turno claudicante, com derrota no clássico para o Fluminense, o Botafogo enfrenta o mesmo adversário na semifinal, com Fred, seu goleador inspirado, e vence, de virada.

O time contra quem jogaríamos a final sairia de Vasco x Flamengo. E tirando nós, nenhum outro time do Rio tem feito frente a eles. Não deu outra.

A vitória alvinegra na decisão contra o Flamengo começou a se desenhar antes do jogo, quando nossa torcida parecia que estaria maior do que o outro lado. Antes do apito inicial, eles chegaram, mas o sentimento de opressão não era o mesmo de anos anteriores. O êxtase quase virou água fria aos 33m do segundo tempo com o já conhecido penaltizinho pra eles, como nos anos anteriores. Mas esse ano, também diferente das três últimas edições, nós tínhamos goleiro. Um personagem frio, que quase não aparece, ao contrário do badalado ataque rubro-negro. Melhor assim. Aquela defesa foi a resposta à soberba, à arrogância, ao “Flamengo é Flamengo”.

Já que Armando não poderá nos contemplar com sua crônica sobre essa conquista, as palavras entoadas pela torcida, de autoria desconhecida, servem para registrar a epoéia alvinegra: "Momentos ruins eu já vivi, mas nunca parei de cantar (...)". Um dia, a recompensa por esse amor que ninguém cala, chega.

domingo, 11 de abril de 2010

Impresión de viaje


Quatro brasileiros chegam a um restaurante no Centro de Buenos Aires. Monoglotas, pedem à garçonete, em Português, seus pratos e garrafas de vinho. A garçonete argentina, que possivelmente também fala Inglês, responde na língua dos visitantes. Esta cena ilustra a relação Brasil e Argentina atualmente. Os brasileiros, impulsionados pela emergência econômica recente, mas que não vem acompanhada de Educação, fazem uso de sua vantagem monetária e são poucos os que demonstram algum dote intelectual. A Argentina e a argentina (a garçonete) em decadência econômica, ainda mantêm o seu alto grau de instrução, do qual nunca se desfizeram. Outra comparação dessa relação pode ser vista através das roupas. A classe média brasileira deslumbrada, com suas camisas em letras garrafais da Abercrombie, enquanto os argentinos usam roupas discretas sem marca, porém elegantes. Não quero ser acusado de antipatriota. Mas acho que temos que tirar muitos exemplos de nossos hermanos. Embora a decadência seja visível na má conservação, por exemplo, dos prédios públicos, Buenos Aires ainda está anos à nossa frente. Por isso, continuo batendo na tecla de que este é o momento de aproveitar o bom momento da economia brasileira, em função principalmente de nossas vendas de matérias-primas à China, para investirmos em Educação. Só isso será sustentável a longo prazo. Puerto Madero, a área comercial recente da Argentina, serve de exemplo para o que queremos fazer aqui no Rio, que já começou mal com o cafona nome de “Porto Maravilha”. Além de ser de uma elegânia ímpar, construíram uma faculdade na área – a PUC. Outro exemplo bacana é a Libraría Ateneo (foto). Antes, um cinema e teatro luxuosíssimo, virou uma livraria, e não tem muito tempo: dez anos. No Brasil, possivelmente teria virado uma Igreja Universal. Por sinal, há livrarias – quase sempre cheias, diga-se de passagem - em Buenos Aires como há farmácias no Brasil. E eles veneram seus escritores como gostamos de nossos jogadores. No city tour, tem passeio à casa do Borges, seu mais famoso escritor, e diversas esculturas em sua homenagem. Portanto, em vez dessa rivalidade que não leva a nada, podemos olhar pra eles e ver o porquê de terem cinco Prêmios Nobel, o último Oscar de melhor filme estrangeiro...
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