Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

A maior dor do mundo

É a sua. É verdade, a maior dor do mundo é a sua. Não sei se é egoísmo, se pretensão, se arrogância. Mas a maior dor do mundo é a sua. Pode ser uma dor de cotovelo, uma dor de dente, uma dor de cabelo, mas a sua é maior do que a dor dos outros. Ninguém sofre como você. Ninguém tem uma dor como a sua. A deles pode ser uma doença terminal, uma deficiência física ou mental, mas é deles, não é a sua. Não adianta nem relativizar, nem contextualizar, a sua é maior. E não me venha com essa de que não sabe do que eu estou falando. Sem aquela história de “não, comigo tá tudo bem, você que é um maluco pessimista e depressivo”. Aqui, não. Eu não estou falando sobre mim, é sobre você. Mas quer um conselho? Ela só é grande porque é sua. No fundo, ela é pequena como todas as outras. Mas talvez você nunca entenda isso.

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

A obrigatoriedade do papel

Eu não consigo encontrar nenhum argumento além do corporativismo para justificar qualquer queixa em relação à medida do Supremo que acabou com a obrigatoriedade do diploma de jornalista para o exercício da profissão. Todos os outros são absolutamente falhos. O mais corriqueiro e conspiratório é o de que foi uma manobra do Governo para enfraquecer a mídia, e assim, diminuir a fiscalização e oposição a ele, Governo. O que faz um jornal ser bom não são regulamentações do Governo. O que faz um jornal ou qualquer outra empresa boa é a concorrência. Outro dia, bati boca com uns manifestantes que protestavam em frente à FGV contra o Gilmar Mendes. O argumento de um deles: se não há regulamentação para o dono do botequim vender bolinho de bacalhau, ele vai vender bolinhos podre. Respondi eu: se ele vender bolinho podre, você compra uma vez, depois que passar mal, você não compra mais e ainda fala pra todo mundo que ele vende bolinho podre. Com isso, ele vai à falência. Coloque-se na posição de um dono de jornal: se há um cara formado em Letras, que apura e escreve muito bem, você não pode contratá-lo por uma imposição do Governo? O Cuenca é um ótimo exemplo disso. É formado em Economia e escreve muito melhor do que a grande maioria dos jornalistas.
Quem conhece uma redação sabe que o grande mal das redações e a baixa qualidade da maioria dos jornais hoje não se deve ao fato de contar com não-jornalistas ali, mas o de contar com futuros jornalistas, ou seja, estagiários. Por isso mesmo que, pelo menos aqui no Rio, o único jornal que não explora mão-de-obra barata, mas sim prepara-os, não por acaso, é o melhor disparado: O Globo. Ouvi também uns desabafos do tipo: poxa, que merda, poderia ter ficado quatro anos na praia. Isso é para quem não entende (ou não entendeu) o que é a faculdade de Jornalismo. O maior mérito de uma faculdade de Jornalismo, a meu ver, é o de despertar a curiosidade e principalmente o hábito da (boa) leitura. O que faz o Jornalista escrever bem não é a faculdade, é ler compulsivamente. Por isso que, o jornalista quando trabalha com Marketing, Relações Internacionais, Economia (profissões que não precisam de diploma), seja lá o que for, ele faz bem. Aliado a um prévio conhecimento de mundo (oriundo dessa curiosidade), o jornalista devora os livros e o que mais for relacionado ao tema. Eu, como é de se perceber, tenho muito orgulho da minha formação e da maioria dos coleguinhas, que podem não ser os mais bem remunerados financeiramente, mas, geralmente, são os melhores para se sentar num bar e conversar sobre qualquer tema. Esse, aliás, é um problema do Brasil. A cultura, o conhecimento e a inteligência não são valorizados. Que o digam os professores. Ou seja, aqui, a questão é muito maior do que um papel.

Domingo, 21 de Junho de 2009

Querido leitor

Eu nunca escrevi um poema. Sempre quando eu tentei ler uns livros do Drummond, por exemplo, eu nunca conseguia entender. Uns versos desconexos, umas palavras sem sentido. E eu, um cara cartesiano, preciso da lógica, da ordem para entender. Eu achava a poesia uma coisa assim meio egoísta. O cara vai, faz uns versos muito mais para ele do que para o leitor, e tudo bem. E a faculdade de Comunicação me ensinou que você tem sempre que pensar no receptor para emitir uma mensagem. Aí, para escrever eu fico aqui pensando no que seria interessante para você ler. Se é sobre os protestos no Irã, se é sobre o Sarney, se é sobre o inverno que se aproxima. Mas o que eu queria mesmo era escrever sobre mim. Até porque todo o resto anda me parecendo tão superficial. Mas aí, eu que não sou poeta, se escrever uma prosa sobre o que estou sentindo, me exponho muito. A poesia tem esse dom do mistério, do espaço para interpretação. Se é que o poeta está preocupado com o outro. Até porque é ele que importa. Eu queria mesmo era falar de amor, falar dela, mas sem ser tão explícito. Sem me expor tanto. Sem dar tanta bola pra ela. Fiquei imaginando, nestes dias, a situação dos Zuenirs, Veríssimos, Dapieves. Uma vez por semana, o cara se depara com um espaço em branco e tem que escrever sobre o Irã, sobre o Sarney, sobre o inverno que se aproxima. Quantas vezes eles já não devem ter querido escrever sobre eles? Sobre a mulher que o abandonou, sobre a mulher que ele abandonou, sobre a solidão, sobre a saudade. Mas não, tem que pensar em você. Numa boa, você que se dane. E viva a poesia!

Domingo, 7 de Junho de 2009

O real valor das palavras

Esta é uma das raras vezes em que antes de começar o texto, eu já consegui preencher o campo do título. Talvez ele seja melhor do que a prosa que segue. De qualquer forma, é uma estratégia de marketing, de causar impacto para atrair a sua atenção a estas palavras. Pronto. Palavras, ponto-chave do texto. Esta semana, o Barack fez um dos discursos mais bonitos e revolucionários dos últimos anos. Ao começar seu pronunciamento ao mundo islâmico (como os jornais gostam de chamar, como se fosse um mundo à parte), Obama saudou-os com um ''Shalamallek'', tradicional saudação árabe que significa ''paz a todos''. À saudação inicial seguiu-se uma hora de discurso, em que o presidente dos EUA usou trechos do Alcorão, reafirmou a necessidade da criação de um Estado palestino e fez questão de negar qualquer preconceito americano em relação ao Islã, lembrando inclusive de sua origem. Para uns, um discurso histórico, um marco nas políticas internacionais. Para outros, os céticos de plantão (ao classificá-los desta maneira já deixo claro minha posição) são apenas palavras. ''Apenas'' palavras, como se elas não fossem importante. Como se o mundo, a relação humana, não se fizesse através delas. Nelson Rodrigues os taxaria de idiotas da objetividade, aqueles que mensuram as ações exclusivamente através de tratados, de ações, de gestos. Não que eles não sejam importantes, mais até do que as palavras, mas não se pode negar o valor delas. Shalamallek!

Domingo, 31 de Maio de 2009

Sobre a sensibilidade

Você é uma pessoa sensível? Provavelmente você responderia afirmativamente a esta pergunta. Afinal, insensível é um praticamente um xingamento. Seu insensível! É algo como ''seu frio''; ''seu sem coração''. Bem, portanto, talvez seja melhor reformular a questão e trazer algumas outras. Existem pessoas mais sensíveis do que outras? E a sensibilidade, é uma virtude? A gente pode usar o termo sensível de forma intransitiva? Ou precisamos de um complemento, do tipo sensível a alguma coisa? Ou a sensibilidade é um fim em si própria, uma característica? (Perdoe-me tantas perguntas no início do texto, mas eu vi isso no último capítulo do "Sex and the City"e achei legal. Releia o parágrafo acima pensando na voz da Carrie). Dizem que as mulheres são mais sensíveis do que os homens. Estes, se auto se declararem sensíveis já não são mais bem-vistos na mesa do boteco, segundo o Veríssimo, pelo menos, que diria que homem que é homem não tem sensibilidade. Enfim, voltemos ao significado original da palavra. Sensível, sentir, sentimento. Portanto, sensibilidade está supostamente ligada ao sentimento. Será que uma pessoa sensível é a que sente os sentimentos (é uma redundância, mas poderia ser um verso) com mais intensidade? A sensibilidade seria, na verdade, viver ou sentir a vida com mais intensidade? Sentir mais a dor, sentir mais a alegria? Será que o oposto de sensibilidade seria a mediocridade? Será que os insensíveis (esqueça o xingamento) vivem a vida numa linha reta? Dizem que a arte está diretamente ligada à sensibilidade. Na composição de uma música, na escritura de um romance, na pintura de um quadro, numa cena de teatro. E para os não-artistas, como podem aplicar a sensibilidade? Um burocrata, de escritório, numa planinha do Excel? Um matemático numa conta de Baskara? Bem, achar a definição de sensibilidade eu não consegui, mas a de arte eu acho que é essa: expressar a sensibilidade. Sorte a deles.

Domingo, 10 de Maio de 2009

Fora de foco



Recentemente, o Fernando Calazans, colunista de Esportes do Globo, escreveu um artigo criticando os jogadores e técnicos de futebol pelo uso exagerado da palavra foco. ''O time está focado no adversário.''; ''Estamos muito focados para a decisão''. E por aí vai... Há, no entanto, uma justificativa para estes atletas. Como sabemos, os jogadores de futebol, principalmente os brasileiros, não têm uma grau de instrução lá muito elevado e, em consequência deste fato, não dispõem de um vocabulário muito extenso. Introdução futebolística feita (ainda que me doa um pouco falar de futebol nestes dias), o tal do foco saiu do vocabulário dos jogadores de futebol para ser a palavra da moda no Marketing e em qualquer ramo de vendas e corporações. ''Foco no cliente''; ''Foco no consumidor''; ''Foco nas vendas''. As aspas agora saem da boca dos boleiros para a dos marketeiros e afins - pessoas que, diga-se de passagem não podem se fazer valer do argumento dos jogadores de futebol quanto à má educação, pelo menos não às oportunidades -. Nada contra a utilização da palavra para aumentar as vendas, além de um certo empobrecimento da língua portuguesa, que machuca um pouco quem gosta dela. Mas talvez realmente não haja um sinônimo para foco neste caso. Concentração no cliente; atenção no consumidor; determinação nas vendas? É realmente não sei se cabem... Mas o que mais tem me incomodado ultimamente é que o foco deixou o meio corporativo para ser um adjetivo pessoal. Recentemente li um testemonial no Orkut que era mais ou menos assim: ''Fulano de tal, você é uma pessoa muito inteligente, muito legal, muito focada (...)'' Eu não sei quanto a vocês, mas me causa um certo desconforto (para sermos polidos) ver esta palavra empregada exaustivamente e desta maneira. Primeiro, um foco precisa de um objeto. Como na câmera, que, aliás, deve ter sido a origem da palavra. Você foca (calma, não estou te chamando do simpático animal, nem de estagiário de redação) em alguma coisa. No caso da câmera, numa pessoa, numa paisagem... No caso do verbo, no cliente, no trabalho, sei lá (eu não uso como verbo). Daqui a pouco ouviremos e leremos declarações do tipo: ''Maria, você é linda. Eu estou muito focado em você desde a primeira vez que te vi.'' A definição mais apropriada que ouvi sobre esta palavra veio de meu bom amigo João Vicente Duquestrada (www.sombraboa.blogspot.com): ''focar, na verdade, nada mais é do que limitar o todo''. Foco e limitação: duas palavras que têm tudo a ver neste caso.

Quinta-feira, 30 de Abril de 2009

Carta ao meu primeiro amor

...,

Estou te escrevendo esta carta para me redimir de uma fraqueza passada. Talvez se eu estivesse feito isto que estou fazendo agora a gente estaria junto há 18 anos. Nós tínhamos seis à época. Eu queria te dizer que eu te amei. Me perdoe por nunca ter te revelado isto antes, mas é que nesta idade os meninos têm um certo medo das meninas, especialmente das que a gente gosta. Por isso eu sentava tão distante de você na sala. Mas eu gostei de você desde o começo da escola. Acho que é isso o que chamam de amor à primeira vista. Você foi a única dentre todas as meninas que não chorou quando sua mãe foi embora no primeiro dia de aula. Desde então, eu sempre admirei a sua personalidade forte e a sua independência. Você não era a menina mais extrovertida da sala, tampouco a mais tímida. Mas sempre guardou no seu sorriso discreto um charme que eu passei a procurar nas meninas até hoje. Várias vezes eu tentei te impressionar, mas acho que eu nunca consegui. Claro que você não vai se lembrar, mas eu me recordo perfeitamente. Certa vez, teve uma partida de futebol contra os meninos da outra sala. Enquanto as outras meninas brincavam de queimado, você ficou vendo o futebol. Aquele foi o jogo mais importante da minha vida. Você comemorando quando eu marquei um gol foi a grande emoção da minha infância até eu ganhar um Atari. Outro detalhe que eu lembro de você é que enquanto as outras meninas tinham mochilas cor-de-rosa, do ursinho puff, ou floridas, a sua não. A sua era azul, sem nenhuma marca. Você devia ser filha de pais alternativos, provavelmente eles devem ter curtido um nas dunas do barato... O seu cabelo era preto, liso. Você era daquelas meninas que a gente já reconhece que são bonitas, mesmo de costas, sem ter visto o rosto ainda. Eu não lembro se fui eu ou você quem saiu da escola primeiro, mas a partir dali acabou meu amor platônico por você, devido à distância e ao tempo, essa fórmula que a gente ainda não descobriu melhor para esquecer os amores. Bem, hoje em dia, você deve continuar linda, em algum lugar do mundo. Provavelmente a gente não reconheceria um ao outro. Você, eu tenho certeza que não, mas eu talvez sentisse algo diferente. De qualquer forma, eu só queria te dizer que você foi o meu primeiro amor e que eu daria tudo para lembrar o seu nome.

Com carinho,
Júlio